rua cheia

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Ilusão

Eram grandes e bonitas, como são grandes e bonitas todas as coisas que se querem muito. Demorou até as ter para si e o dia em que as teve foi um dos mais felizes da sua vida. Importante e orgulhosa entrou na loja para levar dentro da mala o seu sonho  e no coração o seu tesouro. Ele há coisas assim, grandes e bonitas e brilhantes, que alegram vidas. Depois foi a espera. Pela ocasião certa, que parecia não chegar nunca. Começou a impacientar-se. Uma beleza assim não podia viver escondida. Um dia decidiu-se, e nesse dia haviam de sair à rua juntas. Radiante, preparou-se e pomposamente saiu para a rua de nariz levantado, como as senhoras finas. Infelizmente o passeio não durou muito tempo e a alegria foi tão fugaz que a fez pensar que há gente que não tem direito de sentir a vida. É que poucos minutos depois de ter saído, alguém veio cobrir o seu corpo nu com um casaco e chamaram quem a levasse. Mesmo assim, serena, Eva acariciava o pescoço e falava para as suas pérolas, grandes, bonitas e brilhantes, que só ela via.

miss you

Qualquer dia acabo com isto das saudades, ficam lá bem guardadinhas no sótão, dentro daquela caixa de cartão que nunca ninguém abre, que é para ver se fica mais fácil viver estes dias que gelam a palma das mãos, a ponta dos dedos e parte do coração. Qualquer dia acabo com isto das saudades, ponho-as a fazer ruas onde as pessoas vão passar e sentir uma coisa estranha, mas não vão saber o que é porque calçadas de emoções também só existem na minha cabeça. Qualquer dia acabo com isto das saudades e transformo-as em água a correr para longe, rio de angústias que vá morrer noutra foz. Quando esse dia chegar vai ser bom porque passa a ser possível lembrar, verbo que faz aparecer logo pronto e rápido aquele buraco no meio do peito que é o lugar onde as saudades se instalaram, e assim que podem abrem a porta e deixam entrar frio. Quando este dia chegar vou poder abrir a gaveta sem medo dos olhares dos dias passados, do cheiro do jardim de mil flores, tomateiros e alfaces. Um dia acabo com isto das saudades e vingo-me no regresso à minha rua de toda a vida e à minha casa cheia de mim e de nós, que vou desatar todos, um por um, desde os dias da escola da dona rosinha até ao muro de pedra sobre o fio de água a que pomposamente chamávamos ribeiro. 

Qualquer dia acabo com isto das saudades, mas um amigo disse-me para deixar estar, que é isso que nos faz gente. Será?

 tua, m

A Viagem

Sonhou anos com aquela viagem. Todos os dias, desde que se lembrava de existir, acordou a pensar que um dia a faria. Prometeu a si mesma uma vez e outra vez e tanta vez que ninguém a impediria, e todos os dias sentiu esse desejo como uma parte de si. Trabalhava num lugar cinzento. Levantava-se todos os dias antes do nascer do sol e chegava a casa depois do sol posto, ligava a telefonia e tomava banho, tentativa inútil de livrar-se do cheiro da melancolia que tinha colado à pele. Depois mastigava alguma coisa com sabor a véspera e deitava-se. Sempre com a viagem no pensamento. Às vezes aceitava o convite e ligava para o seu programa da rádio favorito que começava às dez. “Boa noite. Este programa é seu e para si. Venha conversar connosco. Aqui gostamos de ouvir”. E ela fazia-se ouvir. Um dia foi operária num lugar cinzento, no outro foi uma bailarina já velha mas que ainda sabia de palcos, e ainda parece que foi ontem que se fez pintora que vendeu quadros nas ruas de Paris.
Depois adormecia. Invariavelmente a ouvir o ranger das velhas escadas de madeira, os gritos da vizinha e o choro da criança do andar de baixo a anunciar que há muito tinha passado a hora do jantar. E sonhava. Com a viagem. Sonhava que seria lindo, que chegaria o dia em que estaria preparada, e sairia de casa importante, para realizar o seu sonho e cumprir o seu destino.
E a vida seguia o seu ritmo, sempre igual, rotina cheia de coisa nenhuma. Só para ela, que tinha aprendido a substituir as agruras e as dificuldades do dia-a-dia pelo seu sonho e a preencher os buracos que a solidão tinha cavado na sua vida à espera daquele dia, os dias não eram iguais. Sobretudo a partir da altura em que começou a preparar a viagem. Decidiu-se. Um dia lavou a roupa entre o ligar da telefonia e o banho, no outro engomou-a muito bem antes do jantar, e no outro tratou de engraxar cuidadosa mas rapidamente os sapatos porque naquela noite queria ouvir-se na telefonia a ser uma coisa qualquer.

A roupa ficou arrumada em cima da cama e os sapatos num canto do quarto onde dormia, à espera. Do dia.

E o dia chegou. Foi um domingo. Acordou cedo e tomou banho. Não cozinhou o almoço nem foi dar milho aos pombos na praça. Vestiu a roupa que tinha preparado e calçou os sapatos engraxados à pressa para entrar no ar. Por fim abriu o frasco e partiu para a tão desejada viagem. Nesse dia, no prédio, não se falou de outra coisa. A Rosa morreu. 

tua, m

do Livro de Perpétua Rosa, talvez o capítulo 1

A cidade é feia e as ruas vazias de cor.

Perpétua Rosa procura alguma coisa familiar, pode ser um nome, um gesto, um cheiro ou uma esquina, mas passaram tantos anos que a esperança de poder rever-se naquela terra sua de corpo e de alma se escoa para a sombra da cidade gasta. É a primeira vez que regressa e há um terramoto dentro dela, o corpo treme-lhe todo, a boca sabe-lhe a sal. Só não sabe se pela maresia do ar ou se pelo passado que lhe corre dos olhos molhados.

Viajou no tempo até ao dia em que o conheceu. Dobrava a esquina, apressada e de gargalhada solta. A vida era fácil, bonita como um dia de sol, intensa como uma maré viva, eterna como uma noite de Verão. A poucos metros de casa, ele estava encostado à ombreira de uma porta, cigarro na boca, chapéu na cabeça, olhar malandro. Teriam bastado apenas meia dúzia de passos e ela entraria como sempre na pacatez da sua casa, livre de todos os perigos. Mas o mundo parou, e o pó do caminho de casa ficou suspenso para sempre porque presente e futuro se encontraram naquele dia num corpo de menina e num cheiro de homem. Bastou abrir a boca e deixar sair a voz, um tamborilar de palavras ritmadas e sabidas, para a prender numa cadeia se sentires de onde ela nunca mais soube sair.

Perpétua Rosa foi com ele para longe, num comboio que a levou para lá da montanha, onde só quem a esperava era gente de alma gasta. De súbito a felicidade dos primeiros dias foi-se como um papel mal ensaiado, o pano caiu, e ela só deu pelo teatro quando se viu pela primeira vez no palco para onde ele a mandou, a esquina suja onde passariam tantas horas putas da sua vida.

Não se pode fugir à tristeza quando ela se crava no fundo do peito, nem voltar a ser feliz quando à volta nada cheira a casa. Perpétua Rosa depressa aprendeu estas duas lições, por isso não lutou contra elas e deixou-se ficar, a ver-se ao longe, escrevendo todos os dias mais uma linha no seu manual de sobrevivência. Valiam-lhe as migalhas que ele lhe dava, momentos fugazes a brincar ao amor e a fazer de conta que as palavras ditas com aquela voz que continuava a atordoá-la eram verdadeiras. Até que chegou o dia em que ele, tão tirano de coração, se tornou tão frágil de corpo que até ela se comoveu. A doença veio depressa, instalou-se para ficar, começou a comeu-lhe a carne e ameaçava todos os dias começar a roer-lhe os ossos. Perpétua Rosa interpretou-a como um sinal, libertador e conveniente, e decidiu partir. Numa noite quente arrumou as suas coisas na mesma mala com que há trinta anos tinha fugido acreditando na felicidade, e espantou-se por ficar tão vazia de coisas. Aproveitou para a encher de esperança e assim saiu, sem olhar para trás, caminhando num passo decidido até à estação. Dirigiu-se à bilheteira e pediu um bilhete, só de ida, apostada que estava em reencontra-se. Havia pouco movimento àquela hora e ela sentou-se. Não o devia ter feito, porque adormeceu e dentro dos seus sonhos ele começou a falar-lhe com aquela voz e apareceu, vinda não se sabe se do céu se do inferno, uma ternura avassaladora e inesperada, tão intensa como o apito do comboio que partiu sem ela.

Perpétua Rosa ficou ao seu lado até não sobrar dele mais do que uns olhos fundos e a lembrança de uma voz estonteante.

Quando por fim se sentiu livre, voltou e reparou que a sua cidade é feia e as ruas vazias de cor. Perpétua Rosa procura alguma coisa familiar, pode ser um nome, um gesto, um cheiro ou uma esquina, mas passaram tantos anos que a esperança de poder rever-se naquela terra sua de corpo e de alma se escoa para a sombra da cidade gasta.

tua,m